Empreendedorismo Mudança de rota

Ex-trainee da Ambev escolher largar tudo para empreender!

Escrito por formeieagora

“Você só pode estar louco!” – Essa foi a primeira frase do meu Diretor após ouvir meu pedido de demissão. Ele estava coberto de razão. Naquele dia cometi a maior loucura da minha vida e acabei sofrendo todas as consequências dela. Nas próximas linhas gostaria de compartilhar com vocês um pouco da minha história.

2010 – Ao final da faculdade começou a me bater um desespero gigante. Eu já havia batalhado muito para passar na UFMG e mais um pouco para me formar. Mas nada disso parecia fazer sentido se eu não conseguisse o emprego dos sonhos. E meu sonho era grande: queria me tornar trainee da Ambev, o mais concorrido do Brasil. Naquele ano foram mais de 72 mil candidatos! Porque alguém que veio da roça, morou no interior e mal sabia falar inglês, achava que conseguiria ser um dos selecionados nesse processo? Loucura. Após testes onlines, dinâmicas em grupos, entrevistas, mais dinâmicas, mais entrevistas, eu estava exausto. Foi quando eu recebi a melhor ligação da minha vida:
___ Ei Lucas, é o XYZ (Diretor de Recrutamento da Ambev), tudo bem com você?
___ Mais ou menos, fui mal na entrevista com o presidente, não consegui mostrar quem realmente sou…
___ Se o problema é esse, pode ficar tranquilo, aqui dentro você terá muito tempo para mostrar quem você é. Parabéns! Você agora faz parte do time de trainees e donos da Ambev!
Um dos dias mais felizes da minha vida. Para mim, para meus pais e amigos. Acabei usando vários produtos da minha nova empresa para comemorar.

2011 – 2013 – Não é por acaso que a Ambev é a maior empresa do Brasil e vem crescendo de maneira consistente. A empresa é repleta de pessoas excelentes e tem uma cultura incrível de meritocracia, gente boa e sonho grande. No primeiro ano, aprendi mais que durante toda minha faculdade. O programa de trainee da Ambev é realmente diferenciado e você acaba aprendendo sobre todo o processo dela. Durante o processo de trainee, já tive autonomia para criar um projeto que permitia a comparação de preços de bares por meio de redes sociais. No segundo, passei por momentos difíceis e não consegui entregar os resultados que queria. No terceiro e último, tive a oportunidade de trabalhar com pessoas geniais! Aprendi que trabalhar com as pessoas certas é o fator chave de sucesso e felicidade no trabalho. Conseguimos entregar excelentes resultados e mudamos o patamar da nossa área.

O vazio – Mesmo feliz, eu sentia que faltava algo. Eu não sabia dizer exatamente o que era.
Foi assistindo alguns vídeos e lendo alguns livros que comecei a entender o que estava acontecendo.
Em um determinado momento ficou claro: se eu quisesse realizar sonhos realmente grandes, necessariamente teria que correr riscos. A vida não é como um jogo de vídeo game, onde você poder jogar várias vezes. Ela é única e é apenas nela que você terá a oportunidade de correr atrás dos seus sonhos. Quando vi um vídeo do próprio Lemann (um dos donos da Ambev) falando que era preciso correr riscos, não tive mais dúvida: iria pedir demissão! Após anos incríveis em uma das melhores empresas do mundo, estava eu lá “pedindo para sair”.

2014 – O ano em que deixei a maior empresa do Brasil para começar do zero
Enquanto trabalhei na Ambev consegui juntar grana suficiente para me manter por 2 anos sem ganhar nada. Isso me deu segurança e tranquilidade para seguir nessa jornada sem grandes traumas. Eu sabia que teria que reduzir meu custo de vida, mas me planejei para não ter que voltar a viver como um calouro de faculdade.
Meu primeiro projeto pós-demissão era um bar. Fazia todo sentido: eu tinha acumulado um conhecimento na Ambev sobre o tema, havia achado um excelente ponto (entre um estádio e uma universidade) e queria criar uma experiência inovadora, após cansar da “monotonia” dos bares brasileiros. Olhando para trás e analisando essa decisão, consigo ver nela uma tentativa minha de criar uma ponte entre a Ambev e o novo mundo (obscuro) que eu começava a desbravar. O que eu não imaginava, e que esse mundo estava repleto de outras oportunidades.

Startups – Assim como 100% dos brasileiros, eu também estava insatisfeito com a política. Mas se aquilo me incomodava tanto, porque não fazer algo para melhorar? Foi aí que surgiu a ideia louca de tentar criar uma startup para melhorar o processo político brasileiro. O primeiro passo foi buscar pessoas que compartilhavam o mesmo sonho e que tinham competência para realizá-lo. Em poucos dias, conseguimos reunir um time top e nos inscrevemos no SEED, um programa que fornece financiamento e mentoria para startups em fase inicial. Fizemos a inscrição em apenas duas semanas. Tínhamos apenas uma ideia da onde queríamos chegar e sabíamos pouco sobre como faríamos o projeto acontecer.
Porém, para nossa surpresa, fomos selecionados! Mas surgiu um problema: seria possível conciliar o projeto do bar com o Projeto Brasil.org (nome da nossa startup)? Eu amava a ideia do bar e o projeto arquitetônico já estava pronto. Ao mesmo tempo, a ideia de fazer parte do grupo de startups do SEED e contribuir para melhorar a política brasileira me encantava. Acabei resolvendo arriscar mais uma vez.

Minha primeira startup – Já era maio e faltava menos de dois meses para começar a eleição. Decidimos dar sangue para lançar o ProjetoBrasil.org já naquela eleição. Não tínhamos tempo para planejar, testar e coisas do tipo. Seguíamos nossa intuição e compensávamos as falhas com muito trabalho. E esse é o grande ponto em comum entre grandes empresas e startups: se você quiser fazer algo grande, vai ter que trabalhar dia e noite! O Projeto Brasil foi crescendo com ajuda de outros empreendedores do SEED, que assim como nós, também estavam batalhando duro para tornar seus sonhos realidade. O senso de cooperação entre startups é inacreditável! Eu me sentia extremamente feliz e honrado de conviver com cada um daqueles empreendedores animados, trabalhadores e muito, muito loucos.
Nos 6 meses de aceleração do SEED, o ProjetoBrasil.org deixou de ser uma ideia, para virar uma plataforma que permitia aos eleitores conhecer melhor os candidatos à presidência da República. O usuário podia comparar e avaliar as propostas dos candidatos e ainda fazer um teste cego, onde primeiro ele avaliava a proposta e apenas depois descobria qual candidato ela era. No segundo turno lançamos um jogo (The Urna Fighter Combat), que permitia aos eleitores travarem uma disputada entre Aécio e Dilma com base em propostas, e não em acusações.

Em 3 meses de existência, o site alcançou 150 mil usuários e as propostas dos candidatos foram lidas e avaliadas mais de 2 milhões de vezes. Não existe nada mais gratificante que tirar uma ideia do papel e observar as pessoas usando e gostando do produto que sua startup criou. Como explicar a sensação de abrir o Google Analytics numa sexta-feira de noite, e ver várias pessoas de cidades desconhecidas usando seu site? Impossível! Só quem já passou por isso sabe o quanto isso é bom!
Nesse curto espaço de tempo não conseguimos criar uma forma de monetizar o site, e nesse exato momento, o ProjetoBrasil.org está buscando formas de financiar sua continuidade.

Maturidade – E não é que o novo mundo continuava a me presentear com grandes oportunidades? Ao final do SEED, dois amigos me procuraram com um desafio gigante: eles queriam transformar a startup que fundaram, a Méliuz, na melhor empresa do e-commerce brasileiro. Na época o Méliuz já era o maior site de cupons de descontos e cashback do Brasil. Mas se tornar “a melhor empresa do e-commerce brasileiro” parecia um sonho alto demais. No final das contas, aqueles dois loucos me convenceram a conciliar o ProjetoBrasil com aquele sonho desafiador.
Acabei levando para o Méliuz o que havia aprendido na Ambev sobre gestão, cultura e marketing. Mas isso só foi possível porque os fundadores confiaram na minha breve experiência e me deram autonomia para trabalhar.

Após um período de análise dos números da empresa, defini junto com o CEO metas agressivas para os próximos meses. Quando apresentamos para o time, parecíamos dois otários viajando na maionese. Mas o time era excepcional e mês a mês fomos batendo 100% das metas. Em apenas 3 meses duplicamos o número de usuários e triplicamos o faturamento!

A cada dia que passava eu me apaixonava mais pela cultura e pela equipe da empresa. Ninguém estava ali só para ganhar dinheiro. Havia um propósito claro de gerar o máximo de valor para o cliente, mesmo que no curto prazo isso representasse despesas maiores com atendimento ao consumidor e pós-vendas. E talvez essa seja a grande diferença entre as startups que conheci e as grandes empresas tradicionais. Enquanto as últimas se preocupam em gerar valor para o acionista, as primeiras se preocupam em gerar valor para o cliente. A ironia disso tudo, é que várias startups têm conseguido ganhar muito dinheiro fazendo isso.
Como todo namoro que dá certo, o meu acabou virando casamento. No início desse ano fui convidado a me tornar sócio do Méliuz. Finalmente havia encontrado as pessoas com quem gostaria de trabalhar a vida inteira e um sonho gigante o suficiente para preencher o vazio que me incomodava um ano antes. Com tantas coisas boas juntas foi impossível recusar, e eu acabei dizendo “sim, estamos juntos nesse sonho!”

A história está apenas começando e se você conseguiu ler todo o texto, entendeu porque pedir demissão foi a maior loucura da minha vida. E percebeu, que no meu caso, essa “loucura” fez todo sentido.

Recomendações do Lucas:

Conheça o tumblr de onde esse texto foi publicado originalmente:
http://chutarobalde.tumblr.com/

https://medium.com/brasil/como-ter-largado-meu-emprego-para-abrir-minha-tao-sonhada-startup-ferrou-com-a-minha-vida

Você ousa sonhar? https://www.youtube.com/watch?v=zL0o6uLQDh4 

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formeieagora

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