Diversos

A gente sorri pra foto, mas só consegue pensar em como vai ser dali pra frente, né?

Escrito por formeieagora

Eu demorei um ano para conseguir escrever esse meu depoimento. Não é que eu não quisesse contribuir, mas eu realmente não sabia COMO fazê-lo. Na época em que conheci a Luiza e o “Formei, e Agora?”, tinha acabado de me graduar e ser contratada para o meu primeiro emprego. Estava felicíssima, mas o lado exigente não perdoava: desde quando a minha história era tão legal de ser contada a ponto de não se tornar clichê ou arrogante?

Bom, não sei se minha narrativa é lá grande coisa para o grande público, mas aí vai. Pra situar o leitor, faço a minha descrição à la LinkedIn. Meu nome é Amanda, tenho 23 anos e sou formada em Comunicação Social: Jornalismo pela Universidade Estadual Paulista, a minha tão querida Unesp. Recebi meu diploma depois de apresentar o Lacunas Lexicais, meu primeiro livro e orgulho-xodó, como TCC. E se é pra responder ao nome do blog, digo que as dúvidas já começaram ali mesmo: a banca examinadora me disse que eu tinha competência tanto para ser uma pesquisadora acadêmica quanto uma jornalista literária (uau). Socorro!

Pois bem: tentei a academia. Na época, fui aceita em dois programas de mestrado na França, mas não passei na competição por bolsas. Foi duro entender que, embora eu tivesse conseguido surpreender até à minha professora de francês com a nota do exame de proficiência, as comissões julgadoras preferiam financiar engenharia, direito, medicina à minha querida fotografia.

Foi triste, mas passou… E eu também não podia me dar ao luxo de esperar um job de jornalista cair do céu. Depois de 5 anos morando fora – em Bauru, em Orlando durante um intercâmbio da Disney, e em Londres pelo Ciência sem Fronteiras –, não queria voltar para a casa dos meus pais. Mas as tão sonhadas revistas contratam pouco, e se fosse para contar nos dedos o tanto de amigo que estava desempregado, faltava mão e faltava coragem.

Fiz o que (quase) todo mundo faz e comecei a disparar currículos. A cada ignorada, um desespero. Até que um dia, um amigo (insira aqui o som de sinos e apitos) me marcou num post de facebook sobre uma vaga no time de Educação do Consulado Britânico em São Paulo. Dez dias depois, empacotei as malas, arranjei uma amiga assalariada para me fornecer abrigo na selva de pedra brasileira e meti as caras.

Meti as caras mesmo, porque o meu emprego não era nada do que as pessoas (incluindo eu!) esperavam de uma jornalista recém-formada. Eu não era social media numa agência de clientes gigantes que paga uma miséria para os funcionários; eu não era foca nos renomados programas do Estadão ou da Folha; e, para a tristeza da minha avó, eu não era apresentadora do Jornal Nacional ou repórter da Caras.

Aos pouquinhos, fui me tornando a alumni officer para a rede de ex-alunos do Ciência sem Fronteiras – Reino Unido. Até hoje não sei traduzir o termo muito bem, haha. Assinei um contrato para trabalhar remotamente (leia-se home office) por 9 meses, e acabei conseguindo uma extensão para mais 2. Durante esse tempo, fiz de tudo: desde viajar pelo nosso Brazilzão para organizar eventos acadêmicos até compilar uma base de dados com mais de 11 mil contatos. Muitos e-mails e poucos releases; muito bate-papo, mas nada de entrevistas formais.

Ter a disciplina para trabalhar de casa não foi fácil. Tem que levantar cedo, trocar de roupa, se sentar na cadeira direitinho para não ficar com dor nas costas. Por a gente aceitar os horários flexíveis, às vezes acaba tendo que resolver um auê às 9 da noite – e por mais que bata o alívio de missão cumprida, não é assim tão legal. Confesso que adorava quando minha chefe me chamava para as reuniões no Consulado e eu podia ter um gostinho do ambiente, da equipe, da rotina… Justo eu, que escolhi ser jornalista para fugir dela!

Aos poucos, vi que aquela correria não ia ter nada de rotina afinal. Como a iniciativa era nova, tive liberdade para participar da estratégia e da execução. Passei a entender melhor a representatividade dos governos, a importância econômica de programas educacionais, o quão difícil é fazer a comunicação entre públicos alvos diferentes. Pude ser um pouco designer e fazer peças para a internet; fui um pouco recepcionista ao entregar crachás… E, no fim das contas, me identifiquei de coração com o projeto.

Eu num dos eventos mais legais que tive a chance de organizar na época do trabalho - e no qual conheci não só a Luiza, aqui do Formei, como um monte de outras pessoas muito queridas!

Eu num dos eventos mais legais que tive a chance de organizar na época do trabalho – e no qual conheci não só a Luiza, aqui do Formei, como um monte de outras pessoas muito queridas!

Mas o “problema” da gente acabar gostando da coisa nova que está fazendo é que ela vira uma nova prioridade na nossa vida. E bom, quando tentei os mestrados no exterior mais uma vez, decidi incluir uma nova opção de Relações Internacionais nas minhas metas. Para a minha sorte (e novo dilema!), fui finalmente aprovada, com bolsa e tudo, para os dois caminhos 🙂

Acabei escolhendo o programa Crossways in Cultural Narratives, do Erasmus Mundus, por diversas razões – a bolsa era melhor, os estudos durariam mais tempo, eu visitaria mais países. E vou estudar a minha querida fotografia, afinal. Despedi-me do Consulado, da vida em São Paulo e do mercado de trabalho que eu conhecia até então com um abraço apertado e uma saudade incômoda.

A verdade é que, se bem me conheço, vou acabar dando um jeito de misturar tudo numa vida só. Nesse um ano pensando em como escrever esse texto, me dei conta de que existem muito mais coisas no mundo que eu faria do que não faria, e que essa indecisão nem sempre é ruim. Vou publicar meu livro, vou trabalhar no governo, vou ser professora universitária, vou expor as minhas próprias fotos, e ai de quem me disser que eu tenho que escolher! hehe

Longe de mim dar conselhos ou lições de moral com essa minha história. Mas, ultimamente, tenho me esforçado muito para me acalmar quando acho que estou perdendo oportunidades, quando sinto que ainda não fiz tudo o que tinha que fazer… E também para acreditar que o que eu faço é bom o suficiente, ou que eu posso ser boa em várias coisas diferentes. Clichês à parte, acho que a gente não precisa ser personagem-incrível, heroína-impressionante, o tempo todo. Muita coisa depende do acaso, do tempo, dos outros. O importante é estar contente com o nosso próprio protagonismo 🙂

E lá vou eu fotografar mais alguns lugares e pessoas! Partiu? :)

E lá vou eu fotografar mais alguns lugares e pessoas! Partiu? 🙂

Sobre o autor

formeieagora

2 Comentários

  • Minha linda Amanda! Você sempre foi protagonista! Talvez não tivesse a certeza para expor todos esses projetos e firmeza para assumi-los sem medo do que o futuro pudesse estar a lhe reservar! Nunca duvidei de que esse futuro seria grandioso. É muito talento para ficar apenas atrás de fotos, carteiras ou credenciais. Seja um jornalista da imagem com um olhar aguçado e crítico. Seja pesquisadora com vivências singulares para transmitir paixão em seus estudos. Seja a professora universitária que irá inspirar seus alunos e também se inspirar por eles. Assim como me inspirou! Rever esta foto da capa do post me trouxe ótimas lembranças e também muitas saudades, um léxico que é apenas nosso, né? Um beijo carinho e muitos desejos de sorte ao longo do caminho. Mayra, sua eterna professora.

  • Oláaa.. adorei sua história! Eu cheguei até aqui buscando um conforto na internet, pois acabei de formar e já enviei vários currículos e de repente de onde menos espero me apareceu uma oportunidade dos sonhos e aquela que eu pedi a Deus.. porém me bateu uma insegurança, Mas estou confiante, entreguei tudo nas mãos de Deus! ❤

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